Como os ramos

VI Domingo Temo Comum

Esta semana continuamos a ouvir Jesus a falar aos seus discípulos, em plena montanha, onde proclamou as Bem-Aventuranças, a sua proposta de felicidade para nós! O Evangelho, na íntegra, vai dos versículos 17 a 37 do capítulo 5 de S. Mateus; mas preferimos deixar-vos com a forma breve, para não se tornar demasiado longo e podermos, em síntese, perceber melhor o alcance das palavras de Jesus, que não veio abolir a Lei, mas completá-la, convidando-nos a vivermos e a ensinarmos aos outros esses mandamentos. Mas começa logo com uma ressalva: a de que a nossa justiça supere a dos escribas e fariseus. Não devemos agarrar-nos simplesmente à letra da Lei, mas devemos compreender o seu verdadeiro espírito, que é o de nos colocar em comunhão com Deus e comprometidos com os nossos irmãos. Prestemos, então, atenção às palavras de Jesus (Mt 5, 20-22a.27-28.33-34a.37):

Naquele tempo,

disse Jesus aos seus discípulos:

«Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus,

não entrareis no reino dos Céus.

Ouvistes que foi dito aos antigos:

‘Não matarás; quem matar será submetido a julgamento’.

Eu, porém, digo-vos:

Todo aquele que se irar contra o seu irmão

será submetido a julgamento.

Ouvistes que foi dito: ‘Não cometerás adultério’.

Eu, porém, digo-vos:

Todo aquele que olhar para uma mulher com maus desejos,

já cometeu adultério com ela no seu coração.

Ouvistes ainda que foi dito aos antigos:

‘Não faltarás ao que tiveres jurado,

mas cumprirás diante do Senhor o que juraste’.

Eu, porém, digo-vos que não jureis em caso algum.

A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’.

O que passa disto vem do Maligno».

Partindo da Lei – «Ouvistes o que foi dito aos antigos», Jesus faz-nos aprofundar o seu verdeiro sentido, muito mais exigente e libertador, porque nos ajuda a construir, de verdade, o Reino de Deus. Como olho para os Mandamentos de Deus? Procuro apenas não os infringir para não sofrer qualquer castigo por parte de Deus – ou para não os ter de confessar, invejando até quem não os cumpre porque nos parecem mais felizes nesta vida! –, ou tiro deles o máximo de ensinamentos possíveis, com a certeza de que, assim, conheço melhor a Deus e me torno mais livre porque encontro a minha verdadeira dignidade enquanto filho amado de Deus?

Três visões mais profundas nos oferece, desta vez, Jesus, partindo dessa mesma Lei:

  • A primeira tem a ver com as relações fraternas. Se a Lei apenas exige o “não matar”, Jesus convida-nos a ir muito mais longe, respeitando sempre a vida e a dignidade do nosso irmão, seja ele quem for! Daí que devamos viver sempre em comunhão com os irmãos, ultrapassando todos os diferendos pelo nosso esforço de reconciliação: «Se fores apresentar a tua oferta sobre o altare ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti,deixa lá a tua oferta diante do altar,vai primeiro reconciliar-te com o teu irmãoe vem depois apresentar a tua oferta». Respeito sempre a vida e a dignidade dos meus irmãos? Não me excedo com palavras e/ou gestos ofensivos? Sou capaz desse esforço de reconciliação em qualquer circunstância, por mais dura que ela seja?

  • O segundo tema que Jesus aprofunda tem a ver com a questão do adultério. Não basta ficar pelo cumprimento externo da lei. A fidelidade ou a infidelidade vai muito além do ato sexual… Jesus convida-nos a purificarmos os nossos desejos, o nosso coração, mais uma vez no total respeito pela dignidade dos nossos irmãos. Tenho um coração puro? Como olho para os outros? Lembremos uma das Bem-Aventuranças de Jesus: «Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus» (Mt 5, 8).

  • Por fim, a questão dos juramentos. Num clima de confiança e respeito pela dignidade de todos, não são necessários juramentos; a nossa palavra tem de revelar a verdade das nossas atitudes e dos nossos compromissos: o “sim” é um sim; o “não” é efetivamente um não! Digo sempre a verdade? Tenho o hábito de jurar para, dessa forma, levar os outros a acreditar em mim, mesmo quando não estou disposto a cumprir o que digo? A minha linguagem revela o meu compromisso sério para com os meus irmãos?

É curioso que o Evangelho desta semana aparece numa semana que tanto se fala a respeito da Eutanásia e da vontade de muitos dos nossos políticos em legalizá-la, mesmo sem ouvirem a Sociedade. Jesus, não só aprofunda o sentido desse mandamento da Lei de Deus “Não matarás”, como nos faz perceber que o outro, assim como nós próprios, temos uma dignidade. E esta dignidade vem, não só de sermos filhos de Deus, mas também de sermos pessoas. E só somos realmente pessoas porque vivemos em relação uns com os outros. Assim, para respeitar a dignidade da pessoa, há que fazer tudo para que ninguém se sinta só, mesmo na hora do sofrimento e da morte; e há que fazer tudo para que todos tenham a consolação e o conforto necessário, sobretudo quando a sua vida está mais frágil. Não temos de prolongar a vida de forma artificial, temos sim de respeitar a dignidade de cada pessoa, fazendo-a sentir acompanhada e amada em todos os momentos da sua vida. Aquele que pensa não ter já um sentido para continuar a viver, tem de perceber também que, enquanto pessoa, é um ser em relação, e que outros –família, amigos, etc. – também têm o direito de continuar a ter a sua companhia.Talvez, como alguém dizia, valha a pena pensar nisto!

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