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Uma Conversa com...

Este espaço dedica-se a pequenas conversas em jeito de entrevista com pessoas que, de várias formas, contribuem para a Comunidade Cristã no nosso Seminário Passionista.
Estas pequenas conversas procuram esclarecer e/ou dar a conhecer um pouco de vivência, experiência e testemunho de quem vive de uma maneira mais participativa especifica a sua dedicação à Comunidade Cristã.



João Paulo da Silva Valente, nascido em Luanda, cedo descobre a sua vocação, que vai assumindo com mais força ao longo da sua formação. Esteve sempre presente, como sacerdote, no Seminário Passionista de Santa Maria da Feira, tendo muitas funções nesta casa; acaba por ser mais conhecido, na comunidade, como Director dos Seminaristas e como Responsável da Catequese. De personalidade discreta mas com ternura no trato, apoia novas ideias e está presente para quem dele necessita. Neste momento encontra-se de partida para um novo desafio em Itália, de onde certamente trará ricas experiências. Contudo, continuará a contribuir para a catequese através do site QuererCrer, fazendo parte integrante da equipa.

 

QC- Começaríamos, então, por pedir que nos contasses como foi o teu percurso de vida até este momento?

P. Silva – Eu nasci em Luanda, Angola: os meus pais estavam lá a trabalhar não como emigrantes, mas como residentes. Aos cinco anos vim viver com eles para Avanca – Estarreja, e entrei para a escola primária. Vivi lá até decidir entrar para o Seminário e sou o mais novo de três irmãos.

QC- Como chegas, então, ao Seminário?

P. Silva Os meus pais já me tinham falado da possibilidade de vir para um seminário, mas eu sempre pus essa opção de parte…Talvez fosse um gosto deles, ter um filho padre, agora não houve aqui qualquer pressão.

Como disse, pus sempre essa hipótese de lado, mas no entanto na minha 4ª classe, com 9/10 anos, um Padre Passionista veio à minha escola e falou-nos do seminário, mostrou-nos umas imagens do seminário e foi aí que começou o chamamento: fui o primeiro a levantar a mão quando ele perguntou quem queria vir para o seminário. Quando cheguei a casa e contei aos meus pais, eles acharam muito estranho, e eu fiz uma birra porque queria vir para o seminário.

Acabei por vir para o Seminário e frequentar o 5º ano na recém inaugurada escola Fernando Pessoa na que era ainda Vila da Feira. Fiz a caminhada do seminário até ao 11º ano e foi aí que a vocação foi nascendo, foi crescendo e fui dizendo “porque não?”…

QC – E a partir do Secundário, por onde é que passaste?

P. Silva – Logo a seguir ao 11º ano fui para o noviciado para Espanha ainda com 17 anos: éramos um grupo de seis portugueses, dos quais cinco terminamos o noviciado. Foi um ano de experiência muito forte de vida em comunidade, de vida Passionista; claro que ainda era um jovem de 17/18 anos, mas foi uma experiência enriquecedora e que fez a vocação fortalecer-se, o entusiasmo de seguir Jesus, de me entregar a Cristo como missionário, de ser como os colegas de Portugal, que cativavam pela abertura e vivência comunitária, pela forma como se davam às pessoas. Vindo de Espanha, regressei a Santa Maria da Feira, onde estive até hoje…

QC – Que funções é que foste exercendo aqui?

P. Silva – Antes de exercer funções, fui estudar na Universidade Católica do Porto, onde fiz o ano zero, equivalente ao 12º ano, e depois toda a parte da Filosofia e da Teologia. Durante o curso ainda, fui chamado às funções de colaborador na formação do seminário. Começo a minha presença com os seminaristas desde essa altura, depois além de colaborador passei para director principal; contudo, existia sempre uma equipa directiva, até este ano em que fiquei praticamente sozinho…

QC – Foram outras as funções que acumulaste neste Seminário?

P. Silva – Depois foram-se acumulando outras funções. Para além de sacerdote que tem de estar disponível para os serviços da comunidade, foram surgindo novas funções, entre as quais a catequese, a nível interno como Secretário Provincial, as Equipas de Nossa Senhora, os Cursilhos de Cristandade, Escuteiros, AJP (Associação da Juventude Passionista), são os principais campos de acção… Todas elas permanecem até agora, à excepção da AJP, da qual fiquei liberto este ano.

QC – Não será sempre fácil essa conciliação de tempos?

P. Silva – Às vezes é difícil, tenho consciência de que houve determinados momentos em que alguns movimentos ficaram a sentir um pouco a ausência do assistente, contudo sempre procurei estar mais por detrás, ainda que não estivesse sempre presente, disponível para os ajudar a crescer e a encontrar caminhos…

QC – Sobre a catequese, fala-nos dessa experiência!?

P. Silva – Estou na catequese há 6 anos. O primeiro ano que estive ligado à catequese foi com o Simão como responsável: estava praticamente só nas celebrações das 16h30m e naturalmente em todas as festas desse ano de catequese… e foi assim que começou. Neste momento são cerca de 1100 crianças e adolescentes, cerca de 90 catequistas, ou seja, é um trabalho difícil porque é uma comunidade muito grande, muito vasta…

QC – Começam a surgir mais catequistas novos?

P. Silva Cada vez mais se vêem catequistas novos e que felizmente permanecem mais do que um ano. Torna-se necessário reflectir, num futuro, se os catequistas devem estar com o grupo do início até ao final da caminhada. Talvez fosse mais proveitoso que os catequistas se “especializem” em determinados anos (infância, adolescência) para haver uma certa exigência, perante crianças e adolescentes, que estejam cá não apenas porque gostam muito do catequista, mas porque querem realmente aprender a caminhar para Deus…

QC – Que contributos te trouxe a catequese?!

P. Silva Gostaria de registar fundamentalmente que eu também cresci com a catequese, com o contacto com as pessoas, com os catequistas… na forma de me expressar e de procurar transmitir a palavra de Deus e, não apenas com a missa da catequese, mas depois tudo o que isso me trouxe para a minha forma de estar noutros apostolados, noutras circunstâncias de vida, acho que agora consigo estar mais próximo das pessoas…

QC – Celebrar missas para crianças é diferente?

P. Silva Sim, é completamente diferente. Se lhes queremos chegar temos de usar uma linguagem um bocadinho diferente e claro, como numa sessão de catequese, temos de aproveitar o que a criança é capaz de dizer para procurar ajudá-los e procurar valorizar o que sabem, ou seja, descer um bocadinho ao nível deles, a essa simplicidade. Faz-me pensar sobre a missa dos adultos, talvez eles tenham muito que aprender com as crianças, e a missa talvez devesse ser mais participativa e com uma linguagem mais simples, para que todos entendam.

QC – Qual é a tua visão sobre a catequese nos dias de hoje?

P. Silva A catequese deveria ser dada sobretudo a pessoas adultas, temos outra capacidade, e seriam depois em casa, os pais, que deveriam ir ensinando os seus filhos, não só pela palavra mas também pelo exemplo, pela vivência, pela necessidade de Cristo na vida deles… mas sabemos que os tempos modernos não facilitam…

QC – O que pode a catequese ‘semear’ numa hora por semana?

P. Silva Por aquilo que tenho visto, é um trabalho muito válido. Existem famílias que recomeçaram a sua vida cristã precisamente pela vinda dos filhos para a catequese, de outra forma estavam completamente desligados… Ao longo destes anos, deu para ver que muitos jovenzinhos foram crescendo e foram levando algo daqui da catequese que agora os ajuda a fazerem opções diferentes, a participarem na catequese e na comunidade através de vários movimentos, portanto, é sinal que alguma coisa do que semeamos vai ficando…

QC – Disseste que tínhamos mil e tal crianças e jovens na catequese, não são todos daqui da freguesia da Feira, vêm de muitos sítios, por que é que achas que isso acontece?

P. Silva Por dois motivos muito concretos: o primeiro é a nossa facilidade e flexibilidade de horários, por exemplo, aqui cada ano está disperso por vários dias e horários diferentes. E o segundo, certamente, porque vêem nesta comunidade Passionista uma diferença, uma abertura, uma vivência um pouco mais forte, uma fé apelativa e chamativa.

QC – O que é que achas que faltará à catequese?

P. Silva Certamente que faltam muitas coisas à catequese, mesmo a nível de estruturas que estão muito longe de serem as ideais: as salas, muitas delas, não têm as condições mínimas para um grupo de catequese, os próprios catequistas não tem uma sala, um espaço onde pudessem também ter os seus materiais mais organizados, pudessem até conviver um pouco e estarem juntos.

QC – Se pudesses dizer algumas coisas aos teus catequistas o que é que tu dizias?! Que mensagem deixarias?

P. Silva Sobretudo que se deixem apaixonar por Jesus Cristo, porque é por Ele que têm de estar ao serviço da catequese, não é por A, B ou C, nem pelo estatuto que já nem existe, e ainda bem! Sejam catequistas por amor à causa, apaixonados por Cristo, só assim farão uma boa catequese. A catequese tem de nascer de dentro, tem de nascer do coração com grande motivação ao nível humano e a nível cristão, a nível da sua fé…

QC – E a formação para catequistas, como a vês?

P. Silva Penso que tem de haver da própria pessoa abertura à formação, porque a formação também se faz em casa, também se faz pesquisando, também se faz por conta própria e também se faz com este espírito de abertura ao grupo, partilhar experiências, passarem uns para os outros, acho que isso é muito enriquecedor e acaba por ajudar as pessoas a crescer…

QC – E a tua opinião sobre o site da catequese, o QuererCrer. Tu, que sempre fizeste parte da equipa, como encaraste a proposta?

P. Silva – Mal me falaram da ideia, aceitei-a com muito agrado, porque fazia e faz todo o sentido, aproveitarmos as novas tecnologias para este trabalho, como para outros, este fundamentalmente porque é uma forma de comunicação e comunhão não só com as crianças e adolescentes, mas com os próprios pais, família, comunidade, etc…

Sempre achei que a ideia ia crescer e sempre o manifestei com convicção. Sabia que, naturalmente, no princípio não seria fácil e evidentemente que esperamos que com o tempo tenhamos uma maior participação das pessoas, tal como na sementinha. Tal como em tudo o que se faz quando nasce, leva o seu tempo a ser feito e a ser acolhido e a ser alimentado, e só pela perseverança das pessoas, que estão no serviço, é que as coisas podem continuar a crescer… A nível das visitas eu tinha a certeza que iam crescer porque, embora ao princípio as coisas possam ser vistas com um certo receio, depois a confiança vai crescendo. As pessoas, infelizmente, julgam quase sempre mal as intenções de quem está por diante de determinado projecto. Infelizmente na catequese pecamos, e nas comunidades cristãs peca-se muito por inveja, por ciúmes, julgam-se as intenções das pessoas… naturalmente com o site poderá ter acontecido a mesma coisa, mas eu estava certo que pela nossa perseverança, as pessoas iriam, pelo menos, visitar e aproveitar aquilo que lhes é oferecido através do site. Poderemos ir ainda mais além mesmo a nível formativo, a nível de outros conteúdos… enfim, venham novas ideias! Acredito que o nosso site possa ser, cada vez mais, um elo de ligação e comunhão entre todos os que acreditamos em Jesus Cristo, nomeadamente entre os que, habitualmente, celebram a sua fé nesta nossa comunidade Passionista de Santa Maria da Feira.

 

 
Comentários (1)
Entrevista com Padre Silva
1 Quarta, 28 Julho 2010 16:56
Marília Reis
Desde que tive conhecimento do "querer crer" que tenho consultado, por razões várias o site, interesso-me pelas questões da fé, quero aprofundar os meus conhecimentos. Toda esta busca não tem em si uma questão intelectual, tem sim uma questão de fé.
Começo por me apresentar sou catequista do 1º ano e esta foi a minha 1ª experiência. Porquê ser catequista? No meu caso resulta de uma introspeção, uma vivência interior que me levou a esta decisão. Muito haveria a contar contudo conheci o Padre Silva nos Escuteiros de Santa Maria Feira. Os anos foram passando e para algumas pesoas muita coisa mudou, como foi o meu caso. Devo dizer a quem ler este texto que neste momento sou catequista nos Míssionários Passionistas, conheci um pouco mais de perto o Padre João Paulo Silva e que fico feliz por esta caminhada que ele terá que enfrentar pois são esses os designios de Deus. Apesar disso peço para que ele possa voltar para a nossa comunidade, pois é um elemento de maior valia para dar continuidadade á catequese e á educação dos catequistas bem como dos pais dos catequisandos.
Em relação à entrevista que o Padre João Paulo Silva concedeu não me surpreende, pois era exactamente o que eu esperava que ele disse-se.

Peço a Deus que nos abençõe a todos que participam neste projecto, ao Padre Silva nesta nova caminhada e todos os que o acompanham, bem como a todos os catequistas.

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